A minha praia

A Rua Almirante Gonçalves, eu acho, é a menor de Copacabana. Começa na Avenida Atlântica, ali na esquina do Hotel Debret e do finado restaurante Alcazar, e nem chega a alcançar a Barata Ribeiro, contida pela floresta de prédios, cada um mais feio que o outro.

A beleza mesmo fica represada na ruazinha. Nela, está aquele que, a exemplo da rua, deve ser o menor botequim do bairro, o Bip Bip, comandado pelo Alfredinho – cujo diminutivo entrega, talvez, a condição de também menor dono de bar de Copacabana.

Eu já escrevi muito sobre o Bip Bip, que conheci em 1996, dias depois de ser apresentado a seu dono num lançamento de livro no Leblon. Alfredinho é uma criatura imensa no seu 1 metro e 60 e poucos centímetros de altura. Na época, eu escrevia crônicas no “Jornal do Brasil”. Ele era meu leitor.

Mais do que amigos, o enorme amor à primeira vista fez a gente se adotar como pai e filho, o Alfredo e eu – e assim tem sido desde então.

Escrevo de novo sobre o Bip porque o boteco acabou de completar 49 anos. Abriu as portas pra primeira cerveja no dia 13 de dezembro de 1968, enquanto, em Brasília, o então general-ditador Costa e Silva assinava o AI-5. Em 2018, portanto, vai fazer 50 – e, se a grande mídia tiver juízo, deverá registrar a efeméride e render homenagens ao meu pequeno grande botequim e ao pai que o universo me deu.

O Bip Bip é uma célula comunista extraviada no tempo. Não foi por qualquer razão, além da sentimental, que, em outubro agora, escoltado por uma guarnição de frequentadores do bar, o Alfredinho enfrentou quase 20 horas de voo até Moscou pra participar das celebrações pelos 100 anos da Revolução Bolchevique.

O Bip, como se percebe, igualzinho ao Alfredo, de pequeno mesmo só tem o tamanho físico dos seus 18 metros quadrados. Porque é grande demais. O maior do mundo. De São Paulo, pra onde o destino me lançou em 2017, eu me sinto dentro dele. Por um punhado de razões que só o conhecendo pra saber, não há no planeta boteco comparável.

O genial Mário de Andrade, na sua “Lira paulistana”, numa declaração bárbara de amor a São Paulo, escreveu assim: “Quando eu morrer, quero ficar.” E ainda: “Não contem aos meus inimigos/Sepultado em minha cidade/Saudade.”

São Paulo era a praia do Mário de Andrade – ou as praias, uma delas a Rua Aurora, onde, conforme o desejo registrado na sua lira, gostaria que enterrassem seus pés; e como a Paissandu, onde preferia que tivessem deixado seu sexo; e como o Pátio do Colégio, marco primeiro da fundação da cidade por José de Anchieta, onde ele, Mário, queria que afundassem seu “coração paulistano, um coração vivo, e um defunto, bem juntos”.

A minha praia é o meu enxovalhado Rio de Janeiro, cidade tão linda, apesar de hoje espezinhada e avacalhada e pisoteada e humilhada.

O Rio, tão plural, são as minhas praias. O Bip Bip, contido nele, é uma delas. Uma das praias mais extensas e de areia mais pura.

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