A multidão solitária

Uma vez eu escrevi que ser Flamengo é fazer parte de uma multidão solitária contra a qual todo mundo se une pra torcer pelo fracasso. Eu estava no Rio quando escrevi isso. Faz quase 20 anos. Não imaginava que um dia, longe da minha cidade querida, eu experimentaria essa sensação numa potência maior.

Estou em São Paulo. Acabei de assistir ao Fla 3 x 3 Flu num botequim pé-sujo do lado B de Pinheiros, pra além da Avenida Henrique Schauman, onde quase nada acontece depois de certa hora da noite, a não ser o trânsito incessante, incessante, incessante, e quem conhece São Paulo sabe do que falo.

Mas era jogo importante do Flamengo, e uma pequenina muvuca se formou em volta do aparelho de TV do botequim (deve ser sempre assim) pra torcer contra o meu clube. Na maior parte do tempo, foi uma festa pra pequena roda. O Fluminense ganhava – primeiro por 1 a 0, depois por 2 a 1, por último por 3 a 1.

Doía ver a algazarra quem sabe de corintianos, quem sabe de palmeirenses, quem sabe de são-paulinos, quem sabe de santistas, quem sabe de torcedores de sei lá que times, todos numa gargalhada geral, numa galhofa geral – e eu na solidão muda do meu luto.

Não era provável, mas o Flamengo fez 2 a 3, em seguida fez 3 a 3, e, por ter direito ao empate, conquistou a vaga na semifinal da xexelenta Copa Sul-Americana, competição miúda, boboca, desimportante diante do que clubes do tamanho do Flamengo – e do Fluminense – merecem e devem disputar.

Fazia tempo que eu não vestia o meu dominó de cronista digital pra escrever aqui, como talvez dissesse Fernando Pessoa, se vivesse hoje, e se fosse torcedor do Flamengo. Mas foi o meu dominó de cronista digital que resolveu se vestir de mim, e este desabafo sem valor, mequetrefe, nasceu quase sem querer, nasceu quase por querer.

Jorge Ben Jor, quando se chamava só Jorge Ben, escreveu, e canta até hoje: “Sou Flamengo e não desfaço de ninguém.”

É como, ainda solitário agora, em São Paulo, feliz, eu me sinto.

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