Bolsonaro, Lula, o sertão e o paraíso

Bolsonaro já tem camisa com nome e foto estampados na vitrine de uma lojinha de Brejinho, no sertão pernambucano, a 400 km de Recife. Quem aí conhece Brejinho? Poucos. Bolsonaro todo mundo conhece. Até em Brejinho. Eu vi.

Na cidadezinha tão simpática, onde uma pedra grande e bonita é guardada por um touro brabo, há quem pague pra usar a tal camiseta do candidato da intolerância. Eu vi também – não só gente vestida com ela, mas a pedra grande e o touro brabo.

Também vi que centenas de rios jazem secos sob pontes nos sertões de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, e não se percebe na vastidão do caminho uma providência oficial sequer pra salvar aquela gente de um flagelo tão antigo. Inclusive, em Brejinho com sua crença inocente no Bolsonaro.

Sertão afora, além da camiseta do Bolsonaro, a única imagem de esperança possível do povão na mudança dessa condição tão renitente – eu vi – foi uma missa em louvor a São Sebastião, padroeiro de Brejinho.

Preferi a missa à camiseta, claro, bonita cerimônia no meio da praça, defronte à igreja, assistida por dezenas de vaqueiros montados em seus cavalos. Eu vi.

A mais de 500 km do sertão, paraísos sobrevivem em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, eu vi ainda, e concluí que é preciso preservá-los pra que mais gente possa vê-los no futuro (antes que o Bolsonaro – nunca se sabe, toc, toc, toc – proíba a entrada de viados, lésbicas, transgêneros e de outras “aberrações sociais” aos olhos dele).

Saudade da Praia dos Carneiros, da Ilha de Santo Aleixo, do Pontal do Maracaípe, do mar serenado de Tibau do Sul, da Lagoa de Jacumã, dos coqueiros e do banho de argila da Barra de Sirinhaém, da imensidão de areia, das dunas brancas de Genipabu, da visão da enorme imagem de Santa Rita de Cássia de Santa Cruz. Eu vi. Tanta saudade.

Eu vi no noticiário da TV, mais presente que o governo no sertão de Brejinho e no agreste de Serra Caiada, que Donald Trump e Kim Jong-un prosseguem em suas bizarrices nos Estados Unidos e na Coreia do Norte.

Os dois malucos que comandam os botões das bombas capazes de explodir o mundo – eu me dei conta – são os Bolsonaros do planeta.

Há ainda no sertão, eu vi, gente devota de Lula – e, ao que parece, ele segue favorito na disputa pela Presidência em 2018, apesar do seu martírio judicial, apesar do Bolsonaro e da sua camiseta de Brejinho.

Eu vi a Fortaleza dos Reis Magos caindo aos pedaços em Natal, sem que o Iphan se faça presente, a não ser num cartaz amarelado, do tempo do governo Dilma, que anuncia (anunciava) a promessa de restauração daquele tesouro do Brasil, construído em 1599. Fora Temer!

Eu vi a tarde passar devagar num restaurante-palafita numa ilha do Rio Formoso, já na boca do mar de Pernambuco, até o sol cair e a maré subir e subir e subir, e os pés ficarem submersos na água e no lodo.

Eu vi João Pessoa de longe, na estrada pra Campina Grande, e senti vontade de ir lá.

Vi Adalgisa dormir na viagem como uma fada em repouso, ela do meu lado, com a cabeça pendida e sacolejante, como a daqueles cachorrinhos de pescoço de mola, comuns nos consoles dos carros de Morro Agudo antigamente.

Do alto da Pedra do Tendó, em Teixeira, na Paraíba, eu vi bem longe a hora da volta. O olho se engana. O coração, não.

Eu voltei. Meu coração ficou.

*  *  *  *

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO

Em 2018, a Via Dutra vai encurtar. São Paulo vai ficar mais perto do Rio, e eu vou voltar muitas vezes à minha cidade.

Em todas, vou rever meus filhos, minha Rosa, minha família, minha casa, meus amigos, meu botequim, minha ladeira, meu Morro Agudo, minha Adalgisa, minha vida.

Em 2018, vou ao Maracanã ver um jogo do Flamengo – e o Flamengo vai vencer, vai ter gol do Pepê, e eu vou voltar feliz pra casa.

Pelo menos uma vez, em 2018, eu já vou estar na praia quando o sol nascer e mergulhar no mar. Depois, de bicicleta, vou sentir o hálito bom do vento no meu rosto.

Vou ouvir e fazer músicas em 2018, e escrever muito e cantar o possível.

Fazer um gol em 2018, dois talvez, quem sabe três, seria tão bom, eu quero.

O carnaval vai ser feliz do início ao fim.

Vou viver muitos dias e noites de prazer em 2018, e olhar nos olhos de Adalgisa e acariciar os cabelos dela e sentir o cheiro bom do amor recente ainda exalando do corpo da gente, e ouvir algo bom em que eu me reconheça.

Vou pegar cada vez menos no cigarro e cada vez mais no violão em 2018. Quem sabe não pegue mais no cigarro e só no violão.

Vai ser tão bom que, em dezembro, vou sentir saudade do ano velho – e celebrar bastante, bastante, bastante, mais um pouco, e um pouquinho mais, até amanhecer feliz na primeira manhã de janeiro do ano novo.

Feliz 2019!

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