O ano que teria sido e o ano que foi

Foi o ano em que sonhei passear de mãos dadas com Adalgisa no calçadão do Leme, nós dois no fim da tarde, convidados pelo sol a um mergulho – e acabamos espreguiçados e entrelaçados na grama boa do Ibirapuera. Foi bom.

Foi o ano da Rosa, não a do Umberto Eco, mas a melhor de todas – a minha. Foi o ano que se ofereceu pra mim como o da possibilidade de retorno ao jornalismo de papel, mas a vida impôs ser o do rebatismo na TV.

Foi o ano que deveria ter sido novamente o de Curicica, depois de depois de depois do longe da Zona Oeste carioca, pra lá do cheiro bom de maresia da Barra da Tijuca, e cismou de acontecer além-mar, na Zona Sul paulistana da Berrini, às margens do Rio Pinheiros.

Foi o ano em que não consegui cumprir a promessa sincera de ir mais vezes ao Bip Bip – perdão, Copacabana – e me tornei freguês do boteco Madadayo, testemunha noite sim, outra também das minhas solidões numa esquina da Rua Joaquim Antunes, a última antes da Avenida Rebouças (um abraço, gerente Ceará; um abraço também, garçom Dirceu).

Foi o ano em que tive sete endereços e, a duras penas, depois de trocar algumas vezes os sentidos Grajaú e Osasco, pelejando com minha debilidade de direções, aprendi as rotas dos trens da CPTM e da Linha 4 do metrô de São Paulo. Vou seguir aprendendo.

Também foi o ano que tinha tudo pra ser o do Flamengo, e preferiu ser o do Corinthians. Seria o ano do Guerrero, e foi o do Jô.

O ano do “Fora Temer”, assim foi 2017, e o do Temer que ficou. O ano mais uma vez do Sérgio Moro, das nazibobagens do Bolsonaro, da reedição da caça ao Lula, da recrucificação do PT, do esquartejamento de sonhos, do esquecimento da Dilma, da saudade do Brizola – foi assim 2017.

O Brasil perdeu Luiz Melodia e Rogéria. “Tente passar pelo que estou passando.” O Botafogo ficou sem Max e Perivaldo (e quem se lembra do Perivaldo, que dirá do Max?). Muitos fãs choraram por Jerry Adriani e Belchior (“eu estou muito cansado do peso da minha cabeça”) – e ainda se foram Kid Vinil e Almir Guineto, Nelson Xavier e Neuza Amaral, Teori Zavascki e Marcelo Rezende, Edson do Forrogode e Carlos Chagas, Jorge Bastos Moreno e Frans Krajcberg, Carmen Mayrink Veiga e Ocimar Versolato, Francelino Pereira e Antonio Candido, Jorginho do Pandeiro e Eva Todor, Moniz Bandeira e Ruth Escobar, Luiz Carlos Maciel e Ana Maria Nascimento e Silva, Márcia Cabrita e Paulo Silvino.

Ano também de perdas particulares, gente muito querida que se foi. Feridas doídas que não cicatrizaram.

Foi o ano da Portela campeã depois de 33 anos. Com atraso bem maior, Paulo Maluf foi preso. Foi o ano dos centenários do João Saldanha, da Revolução Bolchevique e do choro “Carinhoso”, de Pixinguinha – gênio que, aliás, teria completado 120 anos em 2017.

Foi o ano das muitas mil milhas aéreas, de sentir frio e saudade, da dúvida e do acerto. O ano que teria sido. O ano que foi.

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