O incrível Hulk e o crível Huck

Quando era pequena, e ainda cabia no meu colo, minha filha caçula dizia sentir pena de mim porque meu carro, o Sujinho, já estava meio passado e minha casa, que ela e os irmãos chamavam de Casa da Bagunça, precisava de, sei lá, uma guaribada. Volta e meia, numa declaração de amor infantil, ela prometia tomar uma providência particular pra dar um jeito naquela situação.

A providência seria escrever duas cartinhas pro Luciano Huck, o apresentador de TV. A primeira, ela me dizia, serviria pra pôr o Sujinho no quadro “Lata velha”, aquele com uma oficina mágica, capaz de transformar em possantes os carros, digamos, como… o meu Sujinho. A segunda, pra inscrever a Casa da Bagunça no “Lar, doce lar”, outro quadro do programa do Huck, que faz com a casa das pessoas o que o “Lata velha” consegue com os carros.

Minha filha caçula nunca chegou a escrever as tais cartinhas (ainda bem, vai que eram escolhidas pela produção do Huck) – e eu até hoje, que bom, mantenho o meu Sujinho em frente à minha querida Casa da Bagunça, no Rio.

A lembrança do gesto de amor da minha filha me voltou à cabeça estes dias, quando vi uma manchete do jornal “O Estado de S. Paulo” sobre uma pesquisa que deu ao Luciano Huck “60% de aprovação” (!) num cenário de eleição pra presidente.

Não tenho nada contra o Huck. Não o conheço, nem tenho o hábito de assistir ao programa dele – apesar da admiração inocente da minha filha no tempo em que ela cabia no meu colo. Mas fiquei pensando: caramba, então, a candidatura do Huck é pra valer mesmo!

Num país onde um deputado condenado por safadeza com dinheiro público é autorizado pela Justiça a exercer seu mandato durante o dia na Câmara e dormir  à noite no presídio, num país onde este mesmo deputado tenta voltar pra cadeia no fim do expediente com queijo provolone e um pacote de biscoitos escondidos na cueca, num país assim, eu pensei, não dá pra censurar o povão por botar fé na candidatura do Huck.

Num país onde o poder é muitas vezes fatiado como baralho num jogo de buraco, num país onde o ex-presidente da Câmara está preso por cometer uma canastra suja de crimes contra o nosso dinheiro, num país maltratado desse jeito, vá lá, não se deve criticar quem quer o crível Huck no Planalto. Se até o Temer, acusado de meter a mão onde não devia, pode ser presidente – e sem ter recebido um só voto pra isso -, se até ele pode, por que o Huck, com tanto apoio da massa, não poderia?

Se até o Bolsonaro, com suas ideias nazibizarras, pode, por que o Huck não poderia também?

Num país no qual 60% dos brasileiros querem um “Lata velha” federal pra resolver o problema do transporte, com seus trens lotados e em petição de miséria, e sonham com um “Lar, doce lar” nacional no lugar do Minha Casa, Minha Vida, por que a gente deve ficar espantado com a constatação de que o povão aprova a pretensão democraticamente legítima do Huck?

Numa comparação livre das coisas, o povão parece sinceramente contaminado pelo desejo inocente de resolver o que parece irresolvível – como a minha filha quando ainda cabia no meu colo.

Resta torcer pro tempo passar e, que nem a minha caçulinha,  esses 60% se esquecerem, quem sabe, de, num sentido figurado, “mandar cartinhas” pro Huck.

O Sujinho e a Casa da Bagunça, que estão comigo até hoje, apesar dessa minha temporada em São Paulo, são a prova de que há caminhos menos espetaculares e mais viáveis pra se resolver as coisas.

*  *  *  *

Um breve aliás. Se a eleição do ano que vem fosse pra super-herói e não pra presidente, entre o Hulk da minha infância e o Huck da infância da minha filha, eu ficaria com o primeiro – e a minha filha, hoje, também.

*  *  *  *

A propósito, quem quiser conhecer meu Sujinho pode clicar aqui.

Comentários antigos: