Quase tudo

São Paulo já me ensinou (a lembrar) que, tirando dinheiro, eu tenho muito mais do que preciso. Tão maior do que todas as minhas necessidades e possibilidades, São Paulo já me ensinou, por exemplo, que é possível viver com 10% das roupas amontoadas no meu armário, no Rio. Ou menos.

São Paulo já me fez também concluir que, nessa imensidão de gente e de edifícios e de carros, ninguém repara no que não quer reparar – que dirá nas minhas roupas repetidas, no meu aprendizado diário de coisas desimportantes, na minha solidão no meio da multidão que desembarca de manhã do trem da CPTM na Estação Morumbi.

De tão grande, e eu tão sozinho, São Paulo tem me ensinado a valorizar as companhias. As melhores. Logo eu, um sujeito tão bem relacionado comigo mesmo.

São Paulo também já me ensinou a ficar em silêncio quando o Flamengo faz um gol no Corinthians, quando o Flamengo faz dois gols no Corinthians, quando o Flamengo faz três gols no Corinthians – mas sei lá como eu reagiria se tivessem sido quatro.

São Paulo tem me ensinado tanta coisa. Quase tudo. Não me ensinou ainda a ficar.

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A esta altura, todo mundo já deve ter ouvido o CD novo do Chico Buarque. Se não foi todo mundo, foi quase todo mundo. Ou quase todo mundo que se interessa, como eu, pela obra do Chico.

Eu só ouvi esses dias. Delicadeza do início ao fim, o disco novo do Chico é uma reunião de canções que entra na alma da gente e pede pra não sair nunca mais.

“Tua cantiga”, a canção número 1 das nove faixas, pôs o Chico na mira do ódio anônimo das redes sociais e lhe rendeu uma acusação ignorante de machismo. Logo essa, uma das mais bonitas das nove.

A acusação é ignorante porque ignora mesmo a beleza que a música contém. Apega-se no que o personagem criado pelo artista diz, atordoado de paixão (“largo mulher e filhos e, de joelhos, vou te seguir…”) – como se os personagens de todas as músicas dele fossem ele próprio.

Ainda bem que não implicaram com “crioulos empilhados no porão de caravelas”, ou na confissão do compositor de que é “apenas um mulato que toca boleros”.

“Como eu vou saber dormir longe do mar?”, o Chico se pergunta em “Massarandupió”, parceria com o neto Chico Brown (e eu, pretensioso, também já me perguntei isso nas madrugadas da Rua Pinheiros, sem me dar conta de que me perguntava, “como vou saber dormir longe do mar?”).

“Mas se a ciência provar o contrário/e se o calendário nos contrariar…/mas se o destino insistir em nos separar,/ danem-se os astros, as bulas… serás o meu amor”, diz a formosura de “Dueto”, que Nara Leão gravou em 1980. O Chico havia composto pra peça “O Rei de Ramos”, do Dias Gomes, e gravou agora com a neta Clara Buarque.

“É da natureza dela viver solta por aí”, canta o Chico no “Blues pra Bia”: “Talvez ela dê risada,/talvez fique encabulada,/talvez queira me avisar/que no coração de Bia/meninos não têm lugar./Porém, nada me amofina,/até posso virar menina pra ela me namorar.” Que construção bonita.

“A moça do sonho”, que nunca tinha gravado, dele e do Edu, é pura carícia: “Há de haver algum lugar,/um confuso casarão,/onde os sonhos serão reais,/e a vida, não.”

“Jogo de bola”, “Casualmente”, “Desaforos”, “As caravanas”, todas as músicas do disco novo provam que a excelência do Chico Buarque, como a beleza da “Fulana” do Carlos Drummond de Andrade, continua “intacta, neutra, rara, feita de pedra translúcida”.

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“Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados vão parar

Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
não voltava jamais”

(“A moça do sonho”, versos do Chico sobre melodia do Edu)

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Enquanto isso, no Brasil do Temer, do Bolsonaro, do Gilmar Mendes, do juiz Moro, no Brasil do novo diretor da Polícia Federal, das malas de dinheiro do Geddel e do irmão dele, no Brasil do telejornal das oito, no Brasil em que o Banco Mundial quer se meter pra acabar com a universidade pública, no Brasil da vida real, enfim, tudo anda mais chato do que o preço da ponte aérea.

Ou quase tudo.

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Foto de Leo Aversa

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