Rascunhos do coração

As maiores saudades que a gente carrega costumam ser pequenas pros olhos dos outros. São saudades de pessoas e acontecimentos e situações sem importância pra mais ninguém – ou só pra alguns poucos, além de nós mesmos.

Saudade não carece de explicação coletiva. Saudade é saudade. Ponto.

Saudade da primeira bola de couro da infância, aquela, amarela e branca, que descascou toda até assumir a cor primitiva marrom. Saudade do pé de jamelão do beco de Morro Agudo, onde a molecada subia pra passar a tarde toda.

Saudade de alguém querido que se foi. Saudade de nós mesmos no tempo das pessoas e das árvores e das bolas de couro e de todas as coisas desimportantes de que a gente sente falta.

*  *  *

Querido cronista, como vai São Paulo?

Não, não precisa responder. Eu já sei. Receba minha pergunta só como um “oi” bobo mesmo. Um “oi” bobo, mas atento a tudo que vai com você.

Dê um pulo no Parque Trianon, beba mais uma cerveja no boteco Madadayo, em Pinheiros, e esqueça, nem precisa me contar como vão as coisas em São Paulo. Como disse, eu já sei.

Porque sei tudo de você – por onde anda, o que pensa, o que alegra seus olhos e o que preocupa e o que retém seu pensamento, esse seu pensamento tão confuso e, ultimamente, tão marinado de sentimentos.

Sei até dos passeios que têm feito, da caminhada pela Avenida Paulista num domingo de sol, da visita ao Museu do Futebol, do seu encantamento infantil diante dos quadros de Di Cavalcanti na exposição inédita na Pinacoteca, dos seus defeitos renitentes de direção nas trocas de linha do metrô, das cervejas nos botequins por onde passa, das conversas com desconhecidos na rua, dos seus olhares, da solidão de madrugada na busca pelo depois.

Sei do seu coração que bate parado como um ponteiro de relógio engasgado, e da falta da sua bicicleta, da sua varanda de Laranjeiras, dos seus papéis espalhados pela casa, dos seus violões, da proximidade de tanta gente que você ama.

Nós, eu e você, que nos unimos numa só pessoa, tanto faz se na esquina de Augusta com Hadock Lobo, ou na subida da Cardoso Júnior, os dois conhecemos bem a dor aguda do seu calo no pé direito, as imperfeições da sua mente, as suas e as minhas doenças.

*  *  *

– Mãe, o que é saudade? – poderia perguntar aquela garotinha que dá a mão a uma mulher ali na esquina das ruas Teodoro Sampaio e Francisco Leitão, na manhã ensolarada de Pinheiros.

– Ah, é uma coisa que fica assim no peito quando a gente sente muita falta de alguém, de um lugar, de uma coisa… – a mulher poderia responder.

– Então, é isso que eu tô sentindo, mãe.

– Saudade do quê, filha?

– Eu não sei.

O sinal abre, e as duas atravessam sem saber do diálogo que inventei pra elas.

*  *  *

Da minha janela atual, São Paulo não é bonita, nem feia. É só uma esquina – de Teodoro Sampaio com Henrique Schaumann.

Da minha janela atual, São Paulo não assusta, nem acolhe. É só longe.

Longe do quê?

Como a garotinha do meu diálogo inventado, eu não sei.

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