Sobre a solidão

A notícia do superfoguete lançado ao espaço com um carrão de luxo acoplado, dada sem muita ênfase por aqui, foi a mais interessante dos últimos tempos.

Talvez tenha superado até a do 7 a 1, ou a da prisão do Marcelo Odebrecht, ou ainda a da transferência do Neymar do Barcelona pro PSG – e só perdido, e de pouco, vá lá, pra do namoro da querida Fátima Bernardes, exposto com dignidade no Instagram.

O tal carrão, deixado lá em cima no vácuo pelo foguete, vai levar seis meses pra chegar à órbita de Marte.

A partir de então, vai flutuar milhões e milhões de anos até, quem sabe, ser descoberto e interceptado por alienígenas.

Em longevidade de interesse, a notícia do foguetão ganhou de longe a da queda do viaduto em Brasília. Ou a da reação do ministro Gilmar Mendes sobre o jabaculê-moradia dos juízes. Ou a da possibilidade do Lula não ser preso pela condenação em segunda instância. Ou a dos novos tiroteios que pararam três vias expressas no Rio.

Ou a do frentista agredido em São Paulo, que, enlouquecidamente, matou dois jovens mijões num bloco de Pinheiros, aqui tão pertinho das mocinhas perfumadas do bar Le Jazz.

A imagem espetacular do superfoguete aterrissando de volta em Cabo Canaveral, depois de se desacoplar do carro de luxo no espaço, vai ficar na antologia do ano.

Porque trouxe um pouco de entretenimento a um mundo real que anda triste e chato demais, o mundo do Donald Trump e do Kim Jong-un – e, em particular, pra nós, filhos de Caramuru e Paraguaçu, o mundo do Temer e do Sérgio Moro.

O superautomóvel espacial, como diria o Odorico Paraguaçu – personagem, aliás, mais sedutor que o Trump, o Kim Jong-un, o Temer e o Moro juntos -, é pilotado “faz-de-contamente” por um boneco astronauta que deve deixar ressabiados os tais alienígenas do futuro, previstos pelo ricaço Elon Musk, fabricante do foguete e do Tesla Roadster, marca do carro.

A solidão do boneco-astronauta, que vai durar milhões de anos, fez pensar muito.

Porque a solidão dele é maior que tudo que se conhece. Tudo que eu conheço.

Não se compara, por exemplo, à solidão da multidão que, de segunda a sexta-feira, viaja silenciosa e entretida com seus celulares nos trens da CPTM na hora do rush, em São Paulo.

Que dirá se compara com a minha própria solidão desimportante na caminhada de toda noite pelas afluentes da Avenida Berrini até a Estação Morumbi.

O boneco, ainda que conseguisse falar, não teria com quem trocar palavra, ou pra quem gritar “fora Temer”, ou desabafar um grito de gol do Flamengo, ou ter alguém que o atendesse amorosamente de madrugada numa ligação boba de celular só pra combinar coisas sem relevância (nem deve ter sinal de telefonia móvel no espaço, coitado).

Mesmo que falasse, o boneco-astronauta continuaria condenado a permanecer mudo pelo menos até a chegada dos alienígenas de daqui a milhões de anos, como previu o ricaço maluco Elon Musk.

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A notícia do lançamento do superfoguete do sul-africano Musk – empresário futurista radicado na Califórnia, sócio da Nasa no projeto – ganhou até a do encantamento do técnico Paulo César Carpegiani com as virtudes do jovem meia-atacante Lucas Paquetá no Flamengo.

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Pela solidão sem previsão de fim do boneco-astronauta, o lançamento do foguete superou em relevância até a renitência dos meus incômodos, deixou pra trás até a notícia particular dos meus desapontamentos.

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SEGUNDA CARTA DE AMOR

Querida cidade do Rio de Janeiro. Escrevo pra contar que vou precisar ficar mais tempo longe de você.

Na segunda-feira retrasada, troquei de endereço pela nona vez em São Paulo. Tudo isso no espaço curtinho de seis meses.

Agora, uma semana depois, troquei de novo, pela décima vez – e essa décima vai ser a última do ano.

Sim, do ano.

Isso quer dizer que, se o o Papa-Léguas não for pego pelo Coiote, ou o Pato Donald não se casar com a Margarida, eu devo atravessar a maior parte de 2018 longe de você.

Longe de mim, na verdade – porque a minha vida, você sabe, está toda aí.

Escrevo também pra renovar minha jura de amor mais que eterno e dizer o quanto lamento pelo que fazem com você.

Os tiroteios nas vias expressas, a morte amiúde nas favelas, as balas perdidas no pré-carnaval, o fracasso das UPPs, as escolas sem merenda, os hospitais sem remédios, os servidores sem salário, a Linha Amarela fechada, a Linha Vermelha em pânico, a vida por um fio na Avenida Brasil, o Crivella, o Pezão, tudo mais de ruim por aí, tudo isso me entristece.

Mas, apesar de tanto pesar, eu volto, prometo.

Não agora, que não vai dar.

Mas volto. Prometo.

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